CIDADE DE GAZA - Tanques e tropas israelenses dividiram a Faixa de Gaza em duas partes na manhã deste domingo, 4, no primeiro dia da devastadora ofensiva por terra contra o Hamas e nono da operação contra os militantes do Hamas. Os soldados dividiram o território em duas partes e cercaram a Cidade de Gaza, em um momento em que a ofensiva ganha força. Os combates deixaram mais de 500 mortos, sendo que 25% das vítimas são civis, além de mais de 2 mil feridos. O Exército israelense confirmou que um soldado foi morto durante confronto na Faixa de Gaza. A morte é a primeira de um soldado israelense na ofensiva terrestre na Faixa de Gaza iniciada no sábado. Segundo o Exército, o soldado morreu vítima de um ataque de morteiro na manhã deste domingo no norte de Gaza.
Pelo menos 24 palestinos, incluindo civis, foram mortos. Segundo fontes militares, o Exército israelense matou ou feriu dezenas de militantes, mas equipes médicas palestinas em Gaza, incapazes de se locomoverem devido aos confrontos, não puderam fornecer um número exato de vítimas. De acordo com o Hamas, apenas quatro militantes foram mortos. Cerca de 31 civis também morreram em ataques aéreos e bombardeios, incluindo uma menina de 12 anos, afirmaram médicos de Gaza. Autoridades palestinas e da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmam que pelo menos 100 civis estão entre os mortos.
O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, afirmou que está consciente dos riscos da operação terrestre de Israel, mas acrescentou que o país não pode permitir que civis israelenses continuem sendo alvo de foguetes lançados a partir de Gaza. No entanto, o lançamento de foguetes persiste e vários deles caíram em Israel na manhã de domingo. Forças terrestres israelenses não entraram nas principais cidades de Gaza, e estavam lutando em comunidades rurais e em áreas abertas que militantes geralmente usam para lançar foguetes e morteiros.
“O número de mártires chegou a pelo menos 500 nos nove dias de ofensiva, incluindo 87 crianças, e mais de 2.450 palestinos ficaram feridos”, afirmou Moawiya Hassanein, diretor dos serviços de emergência médica de Gaza. “O número de mortos pode ser muito maior, já que há muitos mártires e pessoas feridas nas ruas, mas não conseguimos ter acesso a eles”, disse Hassanein.
Segundo a rede CNN, Housam Hamdan e Mohammed Hilou - ambos importantes líderes das Brigadas de Izzedine al-Qassam - foram mortos em um ataque aéreo em Khan Yunis, no sul de Gaza. O Exército confirmou que os dois eram alvo do bombardeiro, mas confirmaram informações sobre as mortes. As Forças de Defesa afirmaram que ambos eram responsáveis pelo lançamento de foguetes de longa distância contra Israel. O Hamas disse ainda que as forças israelenses em Jabalya mataram Mohammed Shalpokh, membro do comando na região responsabilizado por Israel pelo lançamento de foguetes na região norte de Gaza.
Os Estados Unidos bloquearam no final da noite de sábado a resolução do Conselho de Segurança (CS) da ONU que solicitava o imediato cessar-fogo em Gaza e expressava preocupação com a escalada de violência na região. Jean-Maurice Ripert, embaixador da França nas Nações Unidas e presidente do Conselho, afirmou que não houve consenso sobre a resolução, já que “fortes divergências” foram verificadas entre os 15 membros do colegiado
O presidente palestino, Mahmud Abbas, disse que pedirá ao presidente da França, Nicolas Sarkozy, que faça pressões para que Israel encerre sua ofensiva. Os dois se reunirão na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, nesta segunda-feira, pouco depois de Sarkozy chegar à região num esforço para fazer Israel suspender a ofensiva contra o território dominado pelo Hamas. “A liderança palestina está respondendo de todas as formas para encerrar a agressão a Gaza. Amanhã vamos receber o presidente francês e pedir a ele e à União Européia que pressionem Israel a encerrar esta agressão”, disse Abbas no início do encontro com líderes palestinos em Ramallah. O presidente palestino, cujas forças foram expulsas da Faixa de Gaza pelo Hamas em junho de 2007, condenou fortemente a “brutal” operação israelense.
Antes de embarcar para a visita a quatro países no Oriente Médio na segunda-feira, Sarkozy telefonou para a chanceler alemã Angela Merkel, o primeiro-ministro da Espanha, Jose Luiz Zapatero, o primeiro ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert. Sarkozy será o primeiro líder de uma potência a visitar a região desde que Israel iniciou sua ofensiva militar em 27 de dezembro. Ele visitará o Egito, a Cisjordânia e Israel na segunda-feira e a Síria e o Líbano na terça-feira. Em entrevista a jornais libaneses, Sarkozy disse que o Hamas tem uma “grande responsabilidade pelo sofrimento do povo palestino em Gaza”.
O vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, por sua vez, disse que Israel não pediu a liberação ou aprovação dos EUA antes de atacar o Hamas por terra em Gaza. Cheney disse que os líderes israelenses provavelmente decidiram que uma campanha aérea não seria suficiente para destruir os locais de lançamento de foguetes do Hamas contra Israel. Falando ao programa de tevê “Face the Nation”, da cadeia CBS, o vice-presidente disse que Israel não pediu a liberação ou a aprovação do governo Bush.
A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, cancelou uma viagem que faria à China esta semana para tratar da questão da ofensiva militar de Israel em Gaza. “Por causa dos eventos no Oriente Médio, a secretária Rice não poderá viajar a Pequim, China, como esperava”, disse o porta-voz do Departamento de Estado Fred Lash em comunicado. Ele afirmou que o vice de Rice, John Negroponte, viajará para Pequim na quarta-feira em lugar da secretária para a que seria sua última viagem no cargo, para marcar os 30 anos das relações diplomáticas entre a China e os EUA.
Gaza dividida
O Exército israelense dividiu Gaza em duas partes ao entrar com suas unidades desde o posto de fronteira de Karni até o mar, no segundo dia de invasão da faixa palestina, onde hoje já ficou impossível passar entre o norte e o sul. A tática de dividir o território, - de 40 quilômetros de comprimento paralelos ao mar por 15 de largura, em sentido ao interior, onde vivem 1,5 milhão de pessoas -, tem como finalidade fechar as vias de comunicação e de abastecimento do Hamas e de outros grupos armados.
A operação acontece ao mesmo tempo em que as tropas israelenses enfrentam os milicianos palestinos. Na capital da faixa só se escuta o som dos aviões israelenses, de explosões e de disparos de artilharia. O Exército de Israel também mobilizou cerca de 80 tanques, veículos blindados e escavadeiras no antigo assentamento judaico de Mitzarin, a cerca de 3 quilômetros ao sul da cidade. As fronteiras com Israel estão fechadas e o governo israelense informou que não permitirá a passagem das cargas de ajuda humanitária com comida e remédios.
A invasão israelense se iniciou com milhares de soldados de Infantaria, Engenheiros, Artilharia e tanques apoiados pela aviação, pela Marinha e por agências de Inteligência, para acabar com o lançamento de foguetes contra Israel pelo movimento islamita Hamas e outras milícias armadas que atuam na faixa.
Protestos
Milhares de manifestantes contra o ataque por terra de Israel contra Gaza se reuniram neste domingo em Beirute e na capital da Turquia, enquanto os líderes das duas únicas nações árabes do Oriente Médio que assinaram tratados de paz com Israel pediam o fim dos ataques. No Iêmen, autoridades de segurança disseram que manifestantes contrários a Israel atacaram várias residências de judeus na província de Omran, no Norte, quebrando janelas. Pelo menos um judeu teria sido ferido.
A polícia libanesa usou canhões de água para tentar afastar cerca de 250 manifestantes da frente da Embaixada dos EUA na capital do Líbano. Ao fracassar, atirou bombas de gás lacrimogêneo. Um segundo protesto em Beirute, diante do prédio das Nações Unidas, reuniu centenas de partidários do Hamas e do Grupo Islâmico do Líbano.
Na Turquia, mais de 5 mil pessoas realizaram um protesto contra Israel em Istambul, acenando bandeiras palestinas e queimando retratos do primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, e do presidente George W. Bush. No Marrocos, dezenas de milhares se reuniram na capital Rabat para uma marcha pacífica contra a ofensiva em Gaza. A polícia estimou a multidão em 50 mil pessoas, segundo a agência de notícias oficial MAP.
Em Paris, milhares de manifestaram agitaram bandeiras israelenses e cantaram hinos hebreus neste domingo para demonstrar apoio a Israel em sua ofensiva militar em Gaza, um dia depois de um imenso rali pró-palestino ter sido realizado na capital francesa. Cerca de 12 mil pessoas se reuniram numa rua próxima à embaixada israelense, segundo os organizadores, o CRIF, um grupo que reúne organizações de judeus franceses. Segundo a polícia, 4 mil pessoas participaram da manifestação depois que as autoridades proibiram a reunião em frente da embaixada.
No sábado, mais de 20 mil pessoas manifestaram apoio aos palestinos e condenaram a ofensiva de Israel à Faixa de Gaza. A França abriga as maiores comunidades de judeus e muçulmanos da Europa e a violência no Oriente Médio tem provocado tensões em bairros etnicamente mistos. Os manifestantes pró-palestinos queimaram bandeiras israelenses, incendiaram vários carros e quebraram vidros de lojas no Boulevard Hausmann perto do L´Opera, de Paris.
http://www.estadao.com.br/internacional/not_int302437,0.htm